20 maio, 2018

Visita Domiciliar

aquela moça
aquela ali, elegante
de pernas grandes
e bem vestida
aquela lá
de carro bom
chegou aqui
na minha casa
e sem bater
foi entrando
e sem saber
da minha luta
foi falando
e disse que meu rack era velho
que faltava comida na minha geladeira
que tinha pó nos móveis
e que eu era grossa
ela, que chegou chegando
que entrou entrando
me chamou de grossa
e depois foi embora
sou preta pobre
cria da miséria
e da sobrevivência
do dia a dia
a violência
eu conheço bem
de mãe, de pai
de quem um dia eu chamei de paz
e que depois
me apunhalou
e me largou
nessa fogueira
e essa moça
estudada e alta
agora diz
que meu castigo
deve perdurar
quer me tirar
a única coisa
que eu construí
meu amor de mãe
minha criação
quer fazer papel
pra depositar
as minhas filhas
na fila de adoção
outro dia ela voltou
e eu não abri a porta
disse que não tinha chave
e falei dali
de perto das couves
de junto dos tatus bolas
debruçada no tanque
na serventia da rua
que é lugar que lhe cabe
não abro mais
nem a casa nem a boca
que não sou mulher trouxa
de deixar diabo entrar
no sossego da gente













12 dezembro, 2016

~~nuances da vitória terminal~~



secretamente destruída
pousa a nuvem]no chumbo pesado
do domingo estático
e começa a ventar
segredos de deus aos homens

secretamente destruída
minutos são tragados
no balcão do terminal
enquanto dentro do enredo
sequela a alma

daquela que um dia
secretamente destruída
sorriu de viva

(texto nascido na rodoviária de Vitória, por volta de 2008, num momento singular de paixão reticente. escrito em guardanapo,esquecido nas páginas do livro presenteado. revivido hoje)

02 agosto, 2015



            saia saia
        saia saia saia
     saia saia saia saia
  saia saia saia saia saia
saia de saia de saia de saia
            n          ã
            o          é
            d          a        
            s          a        
            i           a
            q          u
            e          s
            a          i
       o   p          a   u


CortE

ríspido tempo
que evapora amor
e chove saudade

lânguido olhar
que espia frestas
ao invés de mirar

pesados dias
que passam devagar
enquanto dormimos

áspero corte
que a vida faz
sem ensaio

inexistente fim
até que enfim
isso desapareça







30 junho, 2015

>>>>>>

e então eu não sei mais   não sei mais onde soube algo   não soube algo quando mais sabia   não sei mais o algo que me subia   não sabia algo quando me dizias   já não sei de nada daquilo que seria   o saber aquilo que seria dito   se tampouco ouço o que mesmo digo   sinto que não sei e isso é bonito   foda-se o que você me dirá disso



14 junho, 2015

sutil

meu único leitor   venha roer minhas ânsias   desembaraçar meus cabelos   nos teus dedos de calos   venha coçar minhas costas   puxar a unha na pele seca   deixa escamar um pouco   e depois me dá um banho   solta minha mão   e me deixe em queda   livre-me do silêncio   esse patético senhor   que insiste em se apossar   das minhas entrelinhas   meu fiel acompanhante   ainda que a fidelidade não exista   fica aqui do meu lado   mais essa noite   espreme meus pés   até sair suco de passos   e aos poucos me toma   conta a história primeiro   antes que eu adormeça   não me deixe dormir   antes de limpar as lentes   mente quem diz que não morre lentamente

26 maio, 2015

A velhice pode tudo
Pode ser prisão
Pode ser começo
Pode ser descanso
Pode ser o terço
                                                 
A velhice fode tudo 
Fode o osso
Fode a vista
Fode o prazo
Fode a moça
                                                
A velhice pede tudo
Pede calma
Pede elo
Pede dente
Pede zelo
                                               
A velhice pensa tudo
Pensa a vida
Pensa a morte
Pensa só
Pensa a sorte
                                                
A velhice muda tudo
Muda a boca
Muda a moda
Muda a pele
Muda o medo

05 maio, 2015

um poema ébrio
se solta muito mais facilmente
do lodo daquilo que são os nós

e singulariza delírios
em um só torpor
que já não dói e é bonito

ah, o poema ébrio
caricaturalmente extravagante
comedor de vírgulas e bom senso

carrega em si a palavra muda
desusada, desnuda
e não quer saber de rimas

serve-se de guardanapos
e não serve para nada
a não ser prolongar madrugadas

um poema ébrio
nunca se equivoca
nem precisa de revisão







07 janeiro, 2015

palavra

paleve

palivre

palove

paluva

03 dezembro, 2014

eu queria inventar
um medidor de carinho
para calcular a intensidade de um beijinho seu
um detector de suavidade
pra entender o que é o seu sono
uma fita métrica
que dissesse quantos metros tem seu sorriso
um livro de histórias
e registrar ali cada palavra que você inventa
uma balança de som
para pesar os barulhinhos que você cria
um top 5 de almofadas
e a mais macia delas ainda seria pedra perto da sua pele
uma física mágica
que estudasse a força do seu belisco bem dado
um decodificador de intensidade
para saber ao certo o que significa sua existência
um galão sem fundo
pra armazenar seus passos de dança
porque eu penso
em quantos sapatos você vai usar durante toda sua vida