26 novembro, 2019

carNegÃO



amor não dói não
o que dói é furúnculo

15 janeiro, 2019

AtemporaL

eu li que o tempo escreve. eu li o que o tempo escreve. dizem que o tempo revela. eu li que o tempo evapora. eu vi que o tempo se esvai. e transforma o sentido em memória. dizem poeticamente saudade. ou deve ser coisa da idade. só. o tempo nos deixa sós. e nunca a sós nem a sóis. amargo tempo filho da puta do caralho de merda. me esqueça. o tempo nos faz esquecidos. e nunca nos esquece. dizem que a gente amadurece. nem assim, o tempo para. nos massacra al dente. pouco tempo nos resta. e perdemos tempo com asneira. agora mesmo ao invés de estudar ou ler ou escrever eu jogava um game insosso que baixei para minha filha. filhos materializam o tempo em suas pernas. preciso de tempo para ir à loja comprar vestidos para ela. os dela viraram batas.  eu li que o tempo é infindo. eu vi o que o tempo infinda. há sentido no tempo quando sentimos o tempo todo. fodam-se as rugas e os ciáticos. há dor que o tempo não cala. os sonhos vãos. os sonhos são o tempo em forma de atos. desatam do desespero a poética. há que se conversar com o tempo. e ele desnudará ponteiros. dizem que distraídos, venceremos. desconfio. eu li que o tempo acaba. eu li o que o tempo apaga.

03 janeiro, 2019

só não choro
quando chove
porque choram por mim

choram alagamentos
gotas grossas de janeiro
lágrimas em guerra

chove tanto que me seco
na dor que se evapora
em solidariedade

o barraco leve
levado pela enxurrada
sem resistência

a história molhada
de pessoas ilhadas
socialmente

se vai nas correntezas
e a senha é distribuída
pela ordem de chegada

crianças pequenas
e mães solitárias
em comunhão

a luta pela vida
retorna como tempestade
quando o sol aparece

há que se começar
de novo e de novo
em resistência



a moça da padaria
desconfia
quando cabe a ela
etiquetar o aumento
da água
da cerveja
do pão
no dia primeiro
do novo salário
mais mínimo
a moça sábia
já sabia
quando lhe coube
escolher
entre o povo e o patrão
mas perdeu
e o que o povo ditou
ela vai sofrer
no bolso
na alma
no chão

sem métrica




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20 maio, 2018

Visita Domiciliar

aquela moça
aquela ali, elegante
de pernas grandes
e bem vestida
aquela lá
de carro bom
chegou aqui
na minha casa
e sem bater
foi entrando
e sem saber
da minha luta
foi falando
e disse que meu rack era velho
que faltava comida na minha geladeira
que tinha pó nos móveis
e que eu era grossa
ela, que chegou chegando
que entrou entrando
me chamou de grossa
e depois foi embora
sou preta pobre
cria da miséria
e da sobrevivência
do dia a dia
a violência
eu conheço bem
de mãe, de pai
de quem um dia eu chamei de paz
e que depois
me apunhalou
e me largou
nessa fogueira
e essa moça
estudada e alta
agora diz
que meu castigo
deve perdurar
quer me tirar
a única coisa
que eu construí
meu amor de mãe
minha criação
quer fazer papel
pra depositar
as minhas filhas
na fila de adoção
outro dia ela voltou
e eu não abri a porta
disse que não tinha chave
e falei dali
de perto das couves
de junto dos tatus bolas
debruçada no tanque
na serventia da rua
que é lugar que lhe cabe
não abro mais
nem a casa nem a boca
que não sou mulher trouxa
de deixar diabo entrar
no sossego da gente













12 dezembro, 2016

~~nuances da vitória terminal~~



secretamente destruída
pousa a nuvem]no chumbo pesado
do domingo estático
e começa a ventar
segredos de deus aos homens

secretamente destruída
minutos são tragados
no balcão do terminal
enquanto dentro do enredo
sequela a alma

daquela que um dia
secretamente destruída
sorriu de viva

(texto nascido na rodoviária de Vitória, por volta de 2008, num momento singular de paixão reticente. escrito em guardanapo,esquecido nas páginas do livro presenteado. revivido hoje)

02 agosto, 2015



            saia saia
        saia saia saia
     saia saia saia saia
  saia saia saia saia saia
saia de saia de saia de saia
            n          ã
            o          é
            d          a        
            s          a        
            i           a
            q          u
            e          s
            a          i
       o   p          a   u


CortE

ríspido tempo
que evapora amor
e chove saudade

lânguido olhar
que espia frestas
ao invés de mirar

pesados dias
que passam devagar
enquanto dormimos

áspero corte
que a vida faz
sem ensaio

inexistente fim
até que enfim
isso desapareça







30 junho, 2015

>>>>>>

e então eu não sei mais   não sei mais onde soube algo   não soube algo quando mais sabia   não sei mais o algo que me subia   não sabia algo quando me dizias   já não sei de nada daquilo que seria   o saber aquilo que seria dito   se tampouco ouço o que mesmo digo   sinto que não sei e isso é bonito   foda-se o que você me dirá disso