07 outubro, 2009

palarvas

Ele pensa que sou demais. Me devora em pensamentos que analfabetizam a razão. Abre minhas páginas e passa as mãos nelas. Acredita quando eu uso a palavra sussurro. Acredita até naquelas em desuso. Eu não faço cena. Incremento elementos mas não faço cena. Atinjo orgasmos lá pelo terceiro, quarto parágrafo. Mas ele goza no primeiro porque me acha demais. Chega a ter insônias depois que me lê. Seriam insônias produtivas? Hoje ele me confessou que gosta do escuro pra me decifrar. Fecha a cortina, acende apenas um abajur que regula a luz fraquinha, encosta nas almofadas e começa a fantasiar contextos entre as minhas frases. Eu e minhas frases soltas. Todas as frases são soltas se escritas e não supomos seus caminhos, enfim. Chega a esquentar o estômago, ele diz, quando no texto existe reticência. Diz que fica sem fôlego imaginando as curvas e desníveis de letra por letra que a reticência economiza. O que ele não sabe é que não existe sentido. Tudo o que revira é porque nasceu revirado. Vem vindo sem avisar e de repente se traduz ali. Meia dúzia de fragmentos interligados e até parece história que aconteceu. Preciso confessar que conto com uma criatividade plantonista em madrugadas de calor intenso. E justamente nessa hora eu prefiro ser apenas uma língua tênue entre o descabido e a rima. Uso da palavra para ritmar os signos e às vezes funciona de ser melodia. Mesmo na invenção existe tormento. E a invenção acaba que é esse tormento sempre. Porque criar não exige gesto feliz. Goza quem impressiona. Até me acharia demais não fossem as barbaridades que cometo. Troco tudo de lugar e nem me mexo. E ele se comove quanto eu meto palavra por palavra nesse texto. Pobre homem que me lê em desassossego.