04 maio, 2008

cachalote

outro domingo nostálgico. todos os domingos nostálgicos deveriam ser relatados. começa por uma cidade de praia com chuva. bucólicos pingos d'água fazem círculos no espelho da lagoa. uma pessoa nada só. homens invadindo casas invadindo mangues. é o que se vê por cima das aparências. tempos depois, em casa, noite. na tv, amelìe se despede de cachalote. um frio de moleton espreguiçando sossegos pelos cantos. penso em cortar o cabelo mais curto.

do outro lado da rua, uma pessoa dorme. é um homem de 37 anos. carrega em seu cochilo uma ironia diante da vida. como se debochasse da pressa das segundas-feiras. está cansado de correr atrás. sobrevive da arte. sobrevive de arte no brasil. gosta de caminhar no mar e sentir o vento nos cabelos. é com isso que sonha naquele momento.

quando o inverno chegar eu quero estar junto a ti. desculpem, não resisti a esta continuidade. quando o inverno chegar, os domingos serão diários. a vontade permanecer na cama escondido em edredons. o cheiro de café fresco acordando o fim da tarde. a tolerância ao lombardi transfigurando-se em tolerância ao casal bonner, onde só ele é bonner. ela é bernardes. o flamengo ganharia todos os jogos todos os dias e seríamos um eterno feriado, embalados por funk e churrasco. novamente penso em cortar o cabelo que,enquanto isso, cresce.

o homem acorda assustado e vê o relógio. quase 11. fome. toma um copo de leite com nescau e engana-se. pensa rapidamente em tudo que não quer fazer mas tem. escuta com atenção como se alguém lhe narrasse a própria história. e prefere não seguir os conselhos. não vai prestar concurso e deixar a arte pra lá. não existe esta opção depois de um certo passo. a estabilidade não opera arrepios como a criação.

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